Numa época do ano em que o frio da rua contrasta com o calor luminoso de milhões de luzes e luzinhas, de todas as cores, formatos e feitios, que enfeitam ruas, prédios inteiros e moradias. Numa altura tão especial em que debaixo de pinheirinhos de Natal se escondem verdadeiros tesouros, encapotados por papéis de cores quentes, fortes e radiosas, aguardando pela meia noite de um dia especial para serem desvendados e provocarem risos e sorrisos, abraços e emoções. As chaminés dão a conhecer ao mundo os aromas das iguarias que tão carinhosamente mães e avós preparam, características da altura. No ar sente-se o cheiro a madeira de pinho que acende a lareira lá de casa, inspira-se o perfume da abóbora misturada com canela, do arroz doce com sabor a limão e do tradicional bacalhau com todos. O cenário é de sonho!
Mariana não esquece um dos seus desejos de miúda, fantasia que ganha ainda mais vida por esta ocasião. Toda a vida sonhou com um presente especial, tão especial que guardou sempre consigo este desejo. Estaria segura que ao partilha-lo com amigos e familiares, não seria compreendida, muitos chamar-lhe-iam tola, uma eterna e tola sonhadora, outros rir-se-iam do que aparentemente pode parecer uma ingenuidade. Ao virar a página para a vida adulta, a sociedade veda, como se de um processo normal e automático se tratasse, o acesso dos adultos à terra dos sonhos. Os sonhos, esses que muitos dizem que comandam a vida, não cabem no mundo real, no mundo das responsabilidades, lutas e dificuldades, no mundo das contas por pagar, no mundo em que o emprego possível contrasta em tudo com o emprego ideal, no mundo das aventuras e desventuras dos adultos! O sonho, essa quase figura de estilo, é coisa do universo da infância e Mariana há muito tempo deixara, ainda que a muito custo, a idade terna da vida. Mariana é uma jovem feliz! Considera-se até uma felizarda e afortunada pela vida. Cresceu numa família simples em recursos financeiros e materiais mas foi no seio desta família que conheceu a riqueza, uma riqueza de afectos, de valores de união e entre ajuda. A família de Mariana era o seu verdadeiro orgulho e ela sabia que era à simplicidade de seus pais que devia tudo o que era e tinha hoje. Mariana tinha nascido de 2 pedras preciosas raras, e digo raras porque nunca as dificuldades da vida foram impedimento para que Mariana e sua irmã crescessem amparadas por uma mão de rigor devidamente acompanhada por uma mão de amor. Quando questionada sobre o presente que gostaria de receber neste Natal, como em muitos outros passados, Mariana não sabia bem o que responder. Considerava que tinha quase tudo o que necessitava num dia a dia mais ou menos desafogado, e teria, seguramente, muito mais que muitos milhões mundo fora.
No plano material Mariana tinha um emprego que considerava satisfatório, tinha carro, casa própria e a possibilidade de conhecer outros mundos e culturas de tempos a tempos. No mundo dos afectos esta jovem mulher encontrava-se rodeada de amigos que desde muito cedo a acompanham, amigos pelos quais seria capaz de atravessar um deserto em horas de aflição e amigos, que fazem justiça a uma conhecida e sábia frase "São como as estrelas, nem sempre os vemos, mas sabemos que estão lá". A vida ensinou Mariana que o conceito de amizade é bastante mais restrito do que à partida esta julgava acreditar, por isso os tesouros da sua vida, entenda-se as pessoas da sua vida, contam-se pelos dedos das mãos e que sortuda que ela é. Uma certa noite, ao serão com amigos, devidamente acompanhado, como é hábito, de uma grande e quentinha caneca de chá, uma das suas bebidas de eleição, Mariana é uma vez mais confrontada pela pergunta da época.
- Sofia, sua amiga e confidente de longa data, insiste - "Anda Mariana, conta-nos lá o que gostarias de receber neste Natal!".
- Mariana cora de vergonha, ganha coragem e diz baixinho, na expectativa de passar despercebida, quase como se tivesse receio de proferir uma afronta à inteligência dos seus amigos - Sofia, gostaria verdadeiramente de receber um "click"!!
- Incrédula Sofia abre os seus olhos muito arregalados e indaga - Um Quê Amiga?!
- Um "click" vê-se Mariana forçada a repetir.
- Sofia, insiste em perceber no que afinal se traduz este desejo aparentemente importante de satisfazer para a amiga e returque - Mariana, explica lá isso como deve ser, por favor.
- Um "Click" meus amigos - explica Mariana - é algo que não se compra num supermercado, que não de adquire numa qualquer superfície comercial, porque um click não é visível ao olho humano e duvido mesmo que seja detectável ao microscópio. Um "Click" não se encontra debaixo de uma pedra, nem tão pouco num banco de um jardim, no cinema ou na discoteca. O "Click" é algo que não se procura, mas que nos encontra, quando tiver que encontrar e se tiver que encontrar. O "Click" é um dos tesouros do Mundo dos Afectos, o mundo que nem vemos nem controlamos, apenas sentimos e nos deixamos ser levados por ele.
Mariana tinha a certeza que o que tinha acabado de dizer havia sido encarado pelos seus amigos como mais uma das suas brincadeiras, mas no seu intimo Mariana sabia que não queria desistir desse seu sonho e acreditava que algures, por esse mundo fora, haveria alguém que partilhava, de forma igualmente ansiosa, desse seu desejo especial "Thit little thing called Click".
(dedicated to a special friend!)